"Você sempre achou graça das minhas manias bobas. Achava graça da
minha risada tímida, do meu medo de baratas voadoras, da ausência de vestidos
no meu guarda-roupa e do meu medo de me prender, de ser permanente. Muita coisa
mudou desde o dia em que eu fui embora e é uma pena que você não saiba disso.
Você não sabe que eu troquei os posteres do meu quarto por fotografias, nem que
a minha risada agora é alta e que eu já matei muitas baratas voadoras. Você
também não sabe que hoje, o meu guarda-roupa é lotado de vestidos de renda, de
babados e afins. Cortei o cabelo e comecei a escrever, acho que isso você sabe
graças as redes sociais. Meu abraço ficou mais apertado, minhas mãos mais bobas
e meus sorrisos mais sinceros. Meu amor ficou mais faminto e minha sede de vida
só se fez crescer. Ainda sou muito boa de garfo, péssima para piadas e ainda
tenho aquele colar de coração. Mas pelo visto eu não fui a única que mudou.
Você também. Suas piadas ficaram sem graça, suas ofensas mais dolorosas e você
tornou-se indiferente. Cortou o cabelo, colocou um brinco e substitui a
schweppes pela cerveja. Jogou fora seus cadernos de poesias e desenhos, e junto
as nossas fotos. Sabe, você iria adorar os meus vestidos, hoje em dia. Mas a gente mudou
tanto né? Meu sorvete preferido não é mais o de flocos, meu perfume não é mais
doce e meu sorriso não é mais de graça. É uma pena que você não saiba que agora
eu tenho uma caixinha lotada de fones de ouvido, porque eu quebro um por
semana. É uma pena que a gente não se conheça mais, depois de tanto tempo. É
uma pena que você ainda não entenda essa minha necessidade de mundo, de gente,
de coisas novas. Eu sempre quis tanto dessa vida, eu sempre quis muito tantas
coisas, eu sempre quis o mundo inteiro. Mas disso você sabe bem, porque você
ainda vê esse brilho nos meus olhos. Você ainda vê o quanto eu gosto desse
vento batendo no meu rosto me mostrando que eu sou livre pra sonhar e, acima de
tudo, realizar. Você vê, não vê? Eu tenho tantos sonhos para realizar que eu
não posso simplesmente sentar aqui na beiradinha dessa estrada esperando você
voltar. Eu sei que foi essa minha dificuldade em ser permanente que me fez te
perder, mas eu sou assim e isso nunca mudou e acho que nunca vai mudar. Eu
sempre tive um certo medo de amar e ser amada. O amor é lindo, na nossa cabeça.
Mas quando ele acontece, é um pouco assustador e um tanto avassalador. Não há
controle nenhum sobre esse sentimento e isso me assusta. É uma pena todo esse
tempo que a gente perdeu longe e todos os vestidos que eu uso e você não vê. É
uma pena saber que a gente pode se ver qualquer dia desses e não se reconhecer.
É claro que vai haver fogo por dentro, queimando em brasa os nossos corações,
em nome das memórias guardadas. Mas ainda assim, não serão mais aquela garota
do sorriso tímido e aquele garoto metido, frente a frente. Agora a metida a
poeta sou eu. Agora nós somos meros estranhos com rostos familiares. Talvez a
gente nunca mais dê certo, porque algumas coisas realmente mudam e mudam muito,
e a brasa que ainda resta acesa pode ser pela esperança de que aquele menino
que conheci, ainda exista. E talvez ele não exista. Mas se esse novo cara
quiser conhecer uma nova eu, aqui estou. Com novos sonhos, novos medos e novas
manias esperando alguém que aceite-as. Alguém que me ensine a ser mais paciente
e mais permanente. Alguém que sacie um pouco essa minha sede de vida e a
acompanhe. Se quiser me conhecer, de novo, pode vir. Vem sem medo, porque foi
por todos os nossos medos que a gente deixou de ser. Eu não garanto que você se
apaixone por quem eu me tornei, mas se agora você não tem mais medo de correr
riscos, vem. Vem e traz um fone de ouvido pra minha coleção. Vem e me chama pra
tomar qualquer sorvete, que não seja mais de flocos. Acredite, vai ser um
prazer conhecê-lo - de novo. Vai ser recíproco, pode vir.
Com amor, da nova eu."
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