mentira
viva...Amorzinho demais me mata. Mata aos poucos. Muito nhem nhem nhem me
enjoa, soa falso. Nada contra os adeptos da terapia do ‘eu te amo’ que mais
parece substituir o ‘bom dia’, cada um ama como desejar, na velocidade em que
desejar. Mas não é do meu feitio. Eu gosto é da pancada. Do difícil caminho de
se apaixonar realmente aos poucos, com o pacote completo de erros e acertos do
outro. Prefiro as brincadeiras sem graça, as tiradas e as risadas que
substituem beijos vazios. Prefiro o ciúme que nasce e tortura aos poucos do que
as ceninhas fingidas. Prefiro sofrer sozinha, sempre preferi. Não sei me
declarar. Prefiro gostar aos poucos, morrer de saudade calada, do que já
começar uma relação com um suposto 'amor à primeira vista'. Os assuntos do
coração sabem nos mostrar tudo como realmente é. Praticamente esfregam a
verdade na nossa cara. Só não aprende quem não quer. Se ver na obrigação de
agradar e elogiar demais, correr atrás do outro com desespero de fugitivo,
acaba criando uma dependência sufocante de ser cada dia mais perfeito e superar
essa perfeição perante o outro. Você deixa de ser você para se tornar a
fantasia de alguém. Se torna uma mentira viva pra suprir a carência alheia e a
própria, coisa triste. Mas um dia essa encenação acaba se desgastando, e se
percebe então como foi fútil perder o tempo assim, com meias verdades que de
verdade não tinha nada. Não quero amores que se digerem rápido demais, sem
mastigar, e deixam a sensação de azia se confundir com algum sentimento sólido.
Não quero pressa em se tornar dono e se permitir domar. Não, não nasci pra
isso. Sinto muito, mas pra mim não passa de lixo. E não é do tipo que deixo no
portão de casa. O material não me impressiona. Estética não me encanta mais.
Entre a verdade e a mentira, ainda prefiro a opção que dói. É mais sincera,
real, improvável e por incrível que pareça, menos executada do que deveria. A
verdade nua e crua, mais nua do que crua. Deixei há muito tempo de acreditar em
qualquer tipo de ilusão que provém de ego e carência. Viver de aparência não me
satisfaz. Não peço eternidade, peço intensidade. Não vou dizer que é a solução
mais feliz, mas a minha felicidade se alcança assim. Cada passo de uma vez, bem
vivido, para que não dependa do próximo. É isso que busco. Aprender a gostar
antes de amar. Pra mim funciona. E muito bem.
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