Ela pisou sem dó no meu meio-sorriso, fazendo-o virar um pavor verdadeiro. Eu me canso dos meus
meio-sorrisos tanto, tanto, que prefiro que a vida seja assim mesmo. E aí me
pergunto se chorei de tristeza profunda ou alegria libertadora, o que acaba
dando no mesmo porque minha profundidade me liberta. A barata preta, enorme e
voadora, posou no canto da minha boca. E eu pude chorar todos os meus medos no
seu sofá e eu pude ficar curvada do jeito que a minha sombra, que só eu vejo,
é. E eu pude borrar todos os meus disfarces e ficar feia sem culpa, porque a
dor consegue ser sempre maior do que qualquer culpa, por isso o meu vicio e m
sofrer. E eu chorei a nossa imperfeição, eu chorei a saudade enganada da nossa
imperfeição, eu chorei a nossa necessidade de se largar, a nossa necessidade de
fugir do mundo em nós e a nossa necessidade de fugir de nós encontrando amigos.
Eu chorei o nosso ego que sempre tem respostas para tudo e não pode perder,
chorei o nosso silêncio cansado de pergunta e desprovido de interesses, a
probreza do mundo que nos impossibilita de sermos felizes sem culpa, a falta de
simplicidade que eu tenho para ser feliz, e eu chorei o espaço da nossa alma
que ainda falta evoluir. Eu chorei o nosso medo de não sermos o que conhamos.
Eu chorei o medo que eu tenho de não ser quem você quer e o medo que eu tenho
de ser exatamente o que você quer. Eu chorei porque precisava de colo, porque
precisava te mostrar a minha fragilidade escondida no meu mau humor. Eu chorei
de birra do meu lado homem. Eu chorei porque vez ou outra o outro ainda bate na
minha porta e eu o deixo entrar, e eu sei que isso é medo do tanto que você
habita todos os lugares. Eu chorei porque eu te amo, mas eu não sei amar. Eu
chorei porque eu sempre canso de tudo e tudo sempre cansa de mim. Chorei de
cansaço profundo de sempre cansar de tudo e tudo sempre cansar de mim. Chorei
de apego ao cheiro do novo e principalmente de melancolia pelo cheiro do velho.
E chorei porque tudo envelhece com novos cheiros e a vida nunca volta. Eu
chorei de pavor da rotina, de pavor do fim, de pavor de sair da rotina e
começar outros fins. Eu chorei meu medo de submissão, o meu medo de vomitar, o
meu medo de me mostrar pra você tanto, tanto, e não ter mais o que mostrar. Eu
chorei minha infinidade de coisas e o medo de você não querer abrir os mais de
um milhão de baús que existem escondidos na caixa cerrada que eu guardo embaixo
do meu peito. Eu chorei meu fim e o medo do meu infinito. Eu teria chorado
cinco anos se você não me dissesse que já era hora de parar. E eu chorei depois
cinco anos escondida, porque eu não sei a hora de parar e não quero que ninguém
me diga. Aliás, eu quero sim. Eu quero que você me diga quando for a hora de
parar, de continuar, de não pensar em nada disso. Eu quero que você me acorde
com uma lista de horas e outra lista de anos e outra lista de encarnações. Eu
quero que você me dê a mão e me ensine o que é um relacionamento porque eu só
sei andar de quatro, cheirando xixi nas ruas e rabos alheios. Eu quero que você
me ensine a ser uma mulher para você. Ao mesmo tempo, eu quero que você suma
porque eu só quero ser uma mulher pra mim. Eu me quero só pra mim. Era a minha
dos de ser solitariamente pra mim. E você a substituiu pela dor de não querer
mais ser solitariamente só pra mim. Mas tudo é dor afinal, e eu não sei ser
leve, eu não sei voar, mas a barata que voou para o canto da minha boca sabe.
Eu carrego o esgoto no meu ventre negro, mas não sei voar como ela. Por isso
ela ainda consegue ser melhor do que eu. E com todos os meus poderes para
entregar a vida de alguém, eu ainda tenho medo da barata. Porque ela sabe ser
misteriosa, ela sabe incomodar sem abrir a boca, ela sabe enjoar o mundo com
sua meleca branca sem ter de mostrá-la a ninguém. Ela é muito mais misteriosa
do que eu. Em comum temo as chineladas do mundo e todos os seres amedrontados
que querem acabar com a nossa raça. Mas o poder dela ainda é muito maior do que
o meu, porque ela não ama, ela não se sente traída pelas chineladas do mundo.
Ela não sabe o que é não entender nada desse mundo e ter medo do tempo. Ela não
sabe o que pe ter nas mãos o poder de construir e destruir, e ter tanto medo
desse poder. Ela vive no esgoto e não sabe o que é ter tanto medo dele. Ela
parece sem ser desejada e não sabe o medo que não desejada causa. Ela é uma
barata e nunca vai saber o medo que a gente sente dde se sentir uma. Barata não
sente dor. E eu chorei tanto que finalmente transformei meu meio canto de boca
num bico inteiro. E chorei porque tenho tanto medo de tudo o que é inteiro, que
eu prefiro viver tudo na cabeça, enquanto o corpo relaxa na minha cama, longe
de tudo. Eu deito na minha cama e imagino tudo o que pode acontecer, enquanto
não toco de verdade a vida para não cansar demais e depois não ter forças para
viver de verdade. Mas acabo dormindo e deixo pra depois. Mas eu chorei
justamente porque descobri que viver na cabeça também é um tipo de coragem,
porque eu não protejo a alma de feridas nem de descanso. Mas aí ela, preta,
imunda, nojenta, indesejada, um pedaço de esgoto, voa na minha direção e me
coloca em movimento. E
eu corro pra bem longe e não penso, só corro. E isso é tão diferente, para mim,
estar em movimento de fora para dentro, que eu choro de emoção. Eu não pensei,
eu vivi. Eu corri dela, eu vivi o medo. Eu vivi o nojo. E eu chorei de dor de
sair da minha bolha interna. Ela me fez ter vontade de gritar para o mundo
nojento para que ele deixe meu coração em paz. Meu coração que quer amar em paz e esquecer
que a vida pode ser nojenta. E eu corri de tudo o que é nojento, e eu chorei
porque com tantas coisas lindas me acontecendo, eu precisei de uma barata para
me lembrar de sentir a vida de fora da minha bolha. Ela perfurou minha proteção
e me fez sair da minha rotina. Ela invadiu tudo e me lembrou de que as coisas
podem dar errado sim, quando menos se espera, e não adianta nada estar com o
chinelo preparado na mão para se defender da vida. A vida voa na sua cara,
esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode
fazer nada. A não ser lavar o rosto e começar tudo de novo.
Tati Bernardi.
Tati Bernardi.
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